Quero me separar

Todos nós, em algum momento do relacionamento, estamos passíveis de pensar nisso.. Entretanto, uma separação pode ser algo definitivo e, se não forem refletidos aspectos importantes, pode ser que surja um arrependimento de algo, muitas vezes, irreversível. Estas reflexões não se aplicam a relacionamentos abusivos!! Excluo aqui também casais com filhos, pois também necessitam de toda uma ótica diferenciada para preservar as crianças, que são o ponto mais frágil em um processo de separação. Em nenhum momento esse pequeno texto substitui o processo terapêutico ou uma sessão de terapia. Apenas traz questões a serem pensadas e possivelmente levadas para trabalhar em conjunto com um psicólogo.

Há muitos motivos que se configuram em pensamentos de separação. Sejam por razões passadas, presentes ou futuras, é importante analisá-las para tomar a decisão mais assertiva e, se realmente se chegar a conclusão que o término é o melhor, realizá-lo da forma menos traumática possível. Não falo aqui de situações traumáticas que ocorrem no relacionamento como uma traição, por exemplo. Aí a situação é muito mais delicada e necessita de um olhar profundo sobre ambos os lados e, muitas vezes, auxílio psicológico. A traição é uma marca que rompe a confiança e modifica a relação de forma permanente, logo, o casal, se decidir continuar juntos, necessita se reestruturar de uma forma nova e inédita. 

Vamos então falar sobre as razões que levam a se pensar em término que não envolvem situações traumáticas. Sempre que surge o pensamento de “eu quero me separar” é importante e necessário se ter clareza do porquê se quer isso. Lembrando novamente que aqui eu falo de situações onde não ocorreram traumas. Muitas vezes, o resultado de pensamentos de separação é a soma de muitas coisas que poderiam ser resolvidas individualmente. Entretanto, as pessoas acabam tomando decisões impulsivas, se separam e somente depois percebem que essas coisas poderiam ser contornadas e sente-se falta do(a) ex. Dessa forma, elencar as razões pelas quais se quer o término é o primeiro passo para se tomar uma decisão assertiva.

A falta de diálogo é um dos aspectos mais recorrentes quando aparecem pensamentos de separação. Situações cotidianas vão acontecendo diariamente e vão pesando sobre os parceiros, que não se comunicam sobre elas, até que chega um momento que se tornam insuportáveis. Há uma frase que diz que “um relacionamento nunca termina por conta de uma toalha jogada sobre a cama, mas inúmeras toalhas, deixadas diariamente sobre a cama”. Cada vez que o outro faz algo que nos incomoda e não conversamos sobre isso, é como se guardássemos uma pedrinha. Ao olharmos para uma pedrinha individualmente, parece não pesar. Agora, inúmeras pedrinhas, pesam a um ponto que não é mais possível de suportar este peso. O diálogo, então, é fundamental para um relacionamento saudável e a manutenção do mesmo. Ao se trazer o assunto quando ele começa a incomodar, temos a chance de usarmos as palavras mais assertivas para trabalhar a questão. Quando já não aguentamos mais, normalmente somos agressivos e grosseiros, nos comunicando da pior forma possível. E, nesse ponto, entram as questões do passado que pesam sobre o relacionamento, por exemplo, as atitudes incômodas que o outro teve durante o tempo e que não comunicamos (essa situação é bem diferente de coisas que comunicamos e o outro continuou fazendo, aí a história é outra). Pensamos: “ele(a) sempre faz isso”, “ele(a) nunca vai mudar”,”eu não aguento mais”. E quantas vezes paramos pra conversar com o outro sobre isso? Dizer que isso nos incomodava? Essa é a nossa parcela de responsabilidade: não ter falado.

Outro ponto importante a ser mencionado são as diferenças de personalidade existentes entre os parceiros. Toda pessoa é um universo único, formado pela genética que recebeu, pelas inúmeras experiências que viveu que moldaram sua personalidade e pelas escolhas que fez que trouxeram sua carga de aprendizagem, configurando-se em como esse sujeito se apresenta no mundo. Dessa maneira, toda relação é um choque de dois universos. Costumes diferentes, pensamentos diferentes, formas de agir diferentes e diferentes níveis de importância atribuídos às coisas. Ou seja, todo relacionamento tem conflitos. Para se dar certo, as duas partes precisam estabelecer em si mesmas o que pode ser cedido e o que é intrínseco e, desta forma, não negociável. Acordos precisam ser feitos. É um exercício de autoconhecimento perguntar-se o que é essencial para mim e o que pode ser negociável. Se relacionar é se conhecer. Às vezes, o casal descobre que os pontos fixos são opostos e que não dá mesmo para caminhar juntos. Entretanto, na maior partes das vezes, descobre-se que era uma queda de braço por birra e por querer ter razão. E, nesses casos, o acordo é possível, permitindo-se que o relacionamento permaneça, amadurecendo individualmente e amadurecendo também a relação.

Outro aspecto a se pensar num processo de separação é imaginar seu futuro sem o outro. As pessoas têm pressa em eliminar aquilo que está incomodando, sem se projetar para o futuro sem a pessoa. Ok, me separei, e agora? Como eu me vejo sem meu parceiro? Em relação a nossa rotina, como será realizar sem meu parceiro? Como eu me sinto ao pensar em encontrar meu ex-parceiro com outra pessoa daqui um tempo? Realizar essas projeções futuras é importante para decidir a respeito de um processo de separação.

Ao final de tudo, refletindo profundamente sobre um término de relacionamento, pode-se descobrir que realmente, não existem mais motivos para continuar juntos. E está tudo bem! Os sentimentos são modificáveis ao longo do tempo. Agora, o importante é encontrar a forma mais saudável de findar a relação. As relações não precisam necessariamente acabar de uma forma traumática. Entretanto, sempre há a possibilidade de ver que ainda existem sentimentos em relação ao parceiro e que vale uma tentativa de retomar a relação. E, para ambos os casos, um terapeuta pode ajudar muito a se passar pelo processo da forma menos traumática e mais assertiva possível para ambos os lados.

Lembrando que essas reflexões não substituem uma sessão terapêutica e muito menos o processo terapêutico. Todos, em algum momento, deveríamos cuidar das nossas emoções e questões com o auxílio de um(a) psicólogo(a). As pessoas vão ao médico ao menos uma vez em sua vida. Por que não realizar o cuidado com as emoções também? Afinal, elas interferem diretamente na saúde do corpo físico e em nossas vidas.

Psicóloga Gabriela Schimaneski de Carvalho

Graduada pela Universidade Federal do Paraná

Pós-graduada em Psicologia Clínica: Humanista, Fenomenológica e Existencial

CRP 08/24012

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